Quando a despedida não basta!
Para começar o primeiro texto postado no Contra Ataque nada é mais apropriado do que falar sobre Fórmula 1. Por que? Ao explicar, voltarei para o final de 1991 quando, aos sete anos, assistia televisão que passava uma corrida de carro. Era madrugada e lembro como se fosse hoje as palavras de um “certo” narrador. Na tela, as últimas voltas de um Grande Prêmio qualquer em um local que eu nem conhecia. Minha televisão ligada no canal quatro e minha memória foram testemunhas do que viria mudar a minha vida. “Ayrton Senna abre a última volta na liderança. Faltam menos de seis quilômetros para tricampeonato mundial. Vem Senna!!! Vem na ponta dos dedos”, gritava o narrador eufórico. Próximo do final da prova o mesmo continuaria até: “Aponta na reta Senna. Vem para maissssssssss... [pausa]!!! Eu já sabia, eu já sabia. Mesmo assim coloca o tema da vitória. Ayrton, Ayrton, Ayyyrtonnn Senna do Brasil”, explodiu de vez o responsável pela transmissão. Na pista, Gerhard Berger foi o vitorioso, Senna foi o segundo lugar após ceder a sua liderança ao companheiro de equipe se consagrando tricampeão mundial. Pela janela do meu quarto, lembro das explosões dos fogos de artifícios.Parágrafo grande, não é mesmo? Mas serve para mostrar onde tudo começou, pois eu viria prestar a atenção em futebol somente dois anos após esse relato, no campeonato carioca de 1993. Mas, vamos voltar ao assunto principal. Depois desse dia, os meus finais de semana se resumiam aos que tinham ou não corridas. Fui me apegando a um “tam tam tam” musical seguido das imagens de um vencedor brasileiro de capacete amarelo vibrando orgulhoso com a bandeira do meu país nas mãos. Fórmula 1 virou prioridade, a ponto de não conseguir completar o catecismo na igreja por causa das faltas seguidas nos domingos de aula coincididos as datas dos GP´s (de quinze em quinze dias). Não me orgulho disso, mas citei para exemplificar a intensidade que eu acompanho este esporte. Já estávamos em 1993.
Contando com o fatídico primeiro de maio de 1994, foram 37 corridas desde o glorioso tricampeonato no Japão. Assisti 36 grandes prêmios. Ironia do destino ou não, o único que não acompanhei o início foi a corrida localizada na Itália com uma curva chamada Tamburello, foi o GP de Imola. Acordei após a batida fatal e, por querer, deixei de ver o resto. Após a confirmação do óbito, todo aquele sentindo que criei para o circo da Fórmula 1 desmoronou. Abandonei o restante da temporada. O vencedor foi um tal de Michael Schumacher, quem se importou?
As temporadas que viriam a seguir constatavam o surgimento de mais um fora de série. Schumacher, bicampeão em 1995, tinha todos os flashes apontados para si. E eu? Bem, resolvi dar mais uma chance a este esporte escolhendo um novo preferido para torcer: o brasileiro Rubens Barrichello. Sei, podem rir a vontade. Pessoalmente acho que ele pagou alto o preço de tentar ser o substituto do Senna, mas, isso é assunto para um outro texto. “Por tabela”, vi o alemão ganhar corridas, jogar sujo, ser antiesportivo e quatro vezes seguidas vice-campeão. Para Damon Hill, Jacques Villeneuve e Mika Häkkinen (duas vezes) respectivamente.
Há um ditado que diz que nós, seres humanos, só enxergamos aquilo que queremos ver. Contando com a temporada de 2000 foram seis anos da dupla de pilotos Schumacher e Barrichello na Ferrari. O alemão venceu cinco campeonatos e quebrou todos os recordes, inclusive o de 65 polepositions (largar em primeiro) de Senna, considerado pela crítica impossível de ser batido. Mesmo assim, eu o considerei um verdadeiro canalha. Rubinho, por outro lado, venceu cerca de dez corridas no mesmo período e era o meu ídolo. Verbo no passado. ERA!
Bastaram sete meses e um anúncio de aposentadoria para eu perceber que, como a morte de Senna em 1994, a saída de Schumacher será algo ruim de digerir. Ganhando ou não mais um campeonato, sua história estará escrita para sempre e seus recordes dificilmente serão superados. O que me conforma é o futuro promissor da F1, Fernando Alonso surge como o próximo a ser batido. Pela tangente, as figuras de Kimi Raikonen e do brasileiro Felipe Massa prometem grandes batalhas para conquistar o próximo título. Quem sabe não iremos escutar mais “tam tam tam” ano que vem?
Conclusão: historicamente está provado. A vida dos heróis é curta. Imortal mesmo são os legados deixados pelos mesmos.

